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Reportagem ·

Sergipe leva a realidade de quem vive das águas à conferência nacional

A participação sergipana em Brasília põe em pauta trabalho e renda na pesca artesanal e na aquicultura.

Em Sergipe, a pesca profissional tem no sertão um dos seus principais pontos de concentração. Porto da Folha lidera o recorte municipal do boletim federal de 2024, seguido por Pacatuba e Ilha das Flores. A lista reúne municípios ribeirinhos, litorâneos e da Grande Aracaju, onde a captura de peixes, a coleta de mariscos e o cultivo de espécies aquáticas sustentam diferentes formas de trabalho. É essa diversidade que a representação sergipana tem a oportunidade de levar à 4ª Conferência Nacional de Aquicultura e Pesca, de 11 a 13 de novembro, no Centro Internacional de Convenções do Brasil, em Brasília.

O Governo de Sergipe informou, em junho de 2026, que cerca de 46 mil pessoas vivem diretamente da pesca e da aquicultura no estado. A dimensão desse trabalho apareceu na etapa estadual da conferência, realizada em 15 de junho, em Aracaju, com a participação de pescadores, aquicultores, entidades, pesquisadores, empresários e gestores públicos. As contribuições foram discutidas coletivamente e integram o processo que desemboca nos debates nacionais. Entre os assuntos tratados estiveram assistência técnica, organização da atividade e resposta aos efeitos das mudanças climáticas.

A etapa de Brasília retoma um processo nacional cuja edição anterior ocorreu em 2009. A proposta é dar continuidade às políticas de pesca e aquicultura entre diferentes governos. O encontro foi organizado em oito eixos que abrangem, entre outros temas, a pesca artesanal e as comunidades tradicionais, a aquicultura sustentável, a infraestrutura, a pesquisa, a equidade de gênero e a adaptação climática. Essa amplitude dá espaço para Sergipe apresentar demandas de vários territórios e segmentos.

Onde estão os trabalhadores da pesca

O Boletim do Pescador e da Pescadora Profissional de 2024, do Ministério da Pesca e Aquicultura, contabilizou 36.596 profissionais da pesca registrados em Sergipe. Dez municípios concentravam 64,1% dos registros, o equivalente a cerca de 23,5 mil profissionais. A relação começa por Porto da Folha, Pacatuba, Ilha das Flores, Aracaju e Brejo Grande. Completam o grupo Nossa Senhora do Socorro, São Cristóvão, Gararu, Santana do São Francisco e Pirambu. Os demais municípios, somados, respondiam por 35,9% do cadastro estadual.

O cadastro federal retrata a pesca profissional registrada naquele levantamento. A estimativa de 46 mil divulgada em 2026 pelo governo estadual tem outro alcance e reúne as pessoas que vivem diretamente da pesca e da aquicultura. O recorte por município mostra onde se concentram os registros da pesca, enquanto estudos locais e levantamentos da produção ajudam a localizar comunidades marisqueiras e polos de cultivo.

O trabalho das marisqueiras

Em São Cristóvão, comunidades da bacia do Vaza-Barris, como Colônia Miranda, tiram sustento da coleta nos manguezais e nas marés. Em Santa Luzia do Itanhy, a Universidade Federal de Sergipe documentou os saberes das marisqueiras do povoado Crasto. Em Estância, estudos sobre Porto do Mato, Ribuleirinha e Manoel Dias registram a relação entre a pesca de mariscos, a coleta de mangaba e a renda das famílias. A extensão da atividade aparece também no trabalho de limpar, preparar, conservar e vender o que chega do mangue.

Na etapa estadual, o Governo de Sergipe informou que as mulheres representam cerca de 62% das pessoas que trabalham na pesca artesanal no estado. O boletim federal de 2024, com um recorte diferente, também colocou Sergipe entre os estados em que elas eram maioria nos registros da pesca profissional. Os dados ajudam a dimensionar a importância de garantir a presença dessas trabalhadoras nas decisões sobre proteção social, saúde no trabalho, formação, crédito e infraestrutura para comercializar a produção.

A qualidade da água e o acesso aos locais de coleta são questões de renda para essas comunidades. Quando um trecho de mangue perde produtividade ou fica inacessível, a perda se estende ao alimento que chega à mesa e ao produto disponível para venda. A discussão sobre conservação de estuários, saneamento e adaptação a eventos extremos tem consequências diretas para quem depende da maré para trabalhar.

A aquicultura no litoral e no interior

O cultivo de organismos aquáticos abrange atividades com exigências diferentes em Sergipe. A criação de camarão tem presença documentada em Nossa Senhora do Socorro, São Cristóvão e Brejo Grande. Em 2025, o estado produziu cerca de 8 mil toneladas de camarão, segundo dados apresentados pelo governo estadual. Na piscicultura, o mesmo levantamento aponta produção anual entre 3,5 mil e 4,5 mil toneladas, com predomínio da tilápia e potencial de expansão no Baixo São Francisco. No interior, Canindé de São Francisco e Itabi receberam alevinos de tambaqui em 2026 para apoiar a criação familiar.

Há também experiências que aproximam a mariscagem e o cultivo. Em Colônia Miranda, a Embrapa, a universidade, a prefeitura e trabalhadores da comunidade participaram de uma atividade de instalação de estrutura para criação de ostras. Em Areia Branca, a Associação Aquicultura 360 atua na criação de tilápias em tanques-rede na barragem de Jacarecica II. Em São Cristóvão, a prefeitura apresentou ao Ministério da Pesca e Aquicultura, em novembro, propostas para melhorar as condições de produção e comercialização de marisqueiras, pescadores e aquicultores. São exemplos de como pesquisa, orientação técnica e organização local podem ajudar comunidades a diversificar a renda.

O que Sergipe pode construir a partir de Brasília

O regimento prevê sete vagas para Sergipe a partir da etapa estadual. A pesca artesanal tem duas. Pesca industrial, aquicultura, academia, governo e categoria livre têm uma cada. A representação por segmentos permite que questões diferentes cheguem à etapa nacional. Um grupo pode discutir condições para o desembarque e a conservação do pescado, enquanto outro trata do cultivo, do acesso à água ou da participação das mulheres nas decisões. A delegação pode articular prioridades com outros estados que enfrentam desafios semelhantes.

Uma das possibilidades é ampliar a assistência técnica de forma continuada, com atendimento adequado à pesca artesanal, à mariscagem e à aquicultura familiar. Para os pequenos cultivos, isso envolve orientação sobre qualidade da água, manejo, sanidade e regularização. Para quem vende pescado e marisco, envolve também gelo, armazenamento, transporte e estruturas de beneficiamento que permitam vender com segurança e negociar em melhores condições. A organização em associações, colônias e cooperativas pode facilitar o acesso a esses serviços e a novos mercados.

Outra expectativa é que o planejamento passe a enxergar melhor o setor em escala municipal. Dados atualizados sobre onde se pesca, o que se produz, quem trabalha em cada etapa e como a renda é distribuída ajudam a definir onde instalar uma estrutura de apoio, onde ampliar a formação e quais comunidades precisam de atendimento mais urgente. Também permitem avaliar se as políticas chegam às mulheres que trabalham no beneficiamento e na venda e se criam oportunidades para os jovens permanecerem nos territórios.

A formação de jovens também passa pela possibilidade de ter renda ao longo do ano. Onde a pesca é sazonal, melhorar o armazenamento e a venda, apoiar outras atividades das famílias e planejar a proteção social nos períodos de menor produção são formas de dar mais estabilidade a quem pretende seguir trabalhando no setor.

Segundo o guia da conferência, as propostas debatidas e votadas em Brasília serão reunidas em relatório final e encaminhadas à Presidência da República. Para Sergipe, o acompanhamento começa pelo que entrar nesse documento e continua nas decisões sobre programas, orçamento e ações locais. É nesse percurso que a participação do estado pode fazer diferença para as marisqueiras dos estuários, os pescadores do litoral e do São Francisco e as famílias que cultivam pescado no interior.